Portfolio: Revista Gestos

Matéria - Revista Gestos
Ed.01/Nov/07
Publicação, elaborada para comunidade Surda.


Somos surdos sim, e daí?

"Seja pela fala ou pelos sinais...conversando a gente se entende"

Por Fernanda Ferreira

No Brasil, de acordo com a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), 14,5% da população é portadora de algum tipo de deficiência – entre eles, os surdos, uma comunidade muitas vezes esquecida.

Classificados como indivíduos não provenientes de Deus durante o Século XVIII, os surdos, assim como outros deficientes, eram excluídos da sociedade. Com o passar do tempo não se pode afirmar que todos os preconceitos foram eliminados, porém é notável uma evolução social.

Uma pessoa pode fechar os olhos e mover-se na total escuridão, e com isso formar algum conceito sobre a natureza da cegueira; outra, que já esteve temporariamente prejudicada por algum problema ortopédico, consegue ter alguma idéia do que enfrenta um deficiente físico. Entretanto, ninguém pode reproduzir a situação de uma pessoa com déficit auditivo grave, mesmo que feche os ouvidos com tampões.

Freqüentemente, as pessoas associam surdez à mudez, esquecendo-se que ser “surdo” não implica ser “mudo”. A mudez é uma outra deficiência, totalmente independente da surdez. Basta lembrar que, por meio de exercícios fonoaudiólogos, um surdo pode aprender a falar – e, neste caso, são chamados “surdos oralizados”. Também há possibilidade de um surdo nunca ter falado, sem que seja “mudo”.

Visando uma comunicação com liberdade, os surdos utilizam a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), que pode ser compreendida por qualquer pessoa interessada em aprendê-la. Além da LIBRAS e do oralismo, também é usado o bimodalismo – que combina os sinais de LIBRAS e a fala, ao mesmo tempo.

Embora existam precedentes legais solicitando aos tribunais que forneçam intérpretes gratuitos para surdos, somente poucos estados transformaram em lei essa requisição. Mesmo com intérpretes competentes, o abismo lingüístico apresenta problemas graves. A linguagem de sinais dos surdos carece de equivalentes vocabulares precisos para muitos termos legais corriqueiros.
Estes problemas de comunicação, de auxílio e suporte aos surdos, podem ser superados quando, em família, o indivíduo encontra incentivo e força para lutar por seus ideais.

O Consultor de Acessibilidade de Comunicação Visual para pessoas surdas e professor de Matemática e LIBRAS Neivaldo Zovico nasceu surdo e é um exemplo de perseverança, força de vontade e objetividade de vida.

Foto Arquivo - Prof. Neivaldo Zovico
Iniciou sua história acadêmica acompanhando o irmão mais velho, também surdo, em aulas numa escola especializada. Foi transferido para uma instituição municipal de ensino, mas após seus professores concluírem que possuía condições foi encaminhado a uma sala de alunos ouvintes – e isto representou um grande desafio para ele, pois não havia intérpretes que o auxiliassem no entendimento das aulas.

Alguns anos após concluir o ensino médio, Neivaldo foi convencido por uma amiga a entrar numa faculdade, se informou sobre professores aptos a ensinar surdo e optou por cursar Matemática. Logo após a conclusão, foi convidado a ensinar LIBRAS no Instituto Santa Terezinha.

Atualmente, Neivaldo é o responsável pelo setor de comunicação do site www.surdo.com.br, que divulga informações e atividade importantes relativas à comunidade surda, visando que a sociedade tenha conhecimento amplo e diminua o preconceito ainda existente.

Foto Arquivo - Neivaldo Zovico: Palestra em Limeira,15/07/2004

O maior sonho do professor é que a sua comunidade seja aceita pela sociedade, e que os ouvintes percam o medo de se comunicar com o surdo simplesmente pelo desconhecimento de LIBRAS. Sua mensagem é clara: “Vamos continuar a luta para garantir nossos direitos de comunicação. Nunca deixemos de batalhar, pois todos somos Iguais, conforme artigo V da Constituição Federal.”

Dicas Conscientes
· Quando quiser falar com uma pessoa surda, se ela não estiver prestando atenção em você, acene para ela ou toque, levemente, em seu braço.

· Quando estiver conversando com uma pessoa surda, fale de maneira clara, pronunciando bem as palavras. Use a sua velocidade normal, a não ser que lhe peçam para falar mais devagar. Gritar nunca adianta.

· Fale de frente para a pessoa, não de lado ou atrás dela.

· Faça com que a sua boca esteja sempre visível. Gesticular ou segurar algo em frente à boca torna impossível a leitura labial.

· Seja expressivo ao falar. Como as pessoas surdas não podem ouvir mudanças sutis de tom de voz que indicam sentimentos de alegria, tristeza, sarcasmo ou seriedade, as expressões faciais, os gestos e o movimento do seu corpo serão excelentes indicações do que você quer dizer.

· Enquanto estiver conversando, mantenha sempre contato visual, se você desviar o olhar, a pessoa pode achar que a conversa terminou.

· Nem sempre a pessoa surda tem uma boa dicção. Se surgir dificuldade para compreender o que ela está dizendo, não se acanhe em pedir para que repita. Geralmente as pessoas surdas não se incomodam de repetir quantas vezes for necessário para que sejam compreendidas.
· Se precisar, comunique-se através de bilhetes. O importante é se comunicar. O método não é importante.

· Quando a pessoa surda estiver acompanhada de um intérprete, dirija-se à pessoa surda, não ao intérprete.

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